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Ole Henrik Kock

FADO



Veja lá, lembro-me desse dia como se fosse hoje, o que de facto também é, mas ali estão a Dora e o Malte, encostados a uma pequena mesa redonda no átrio duma estação dos caminhos-de-ferro, comendo salsichas e bebendo cerveja. A Dora é a Dora e o Malte sou eu, assim fica explicado. À nossa volta formiga um mar de gente dos sítios mais próximos e mais distantes da Terra, para cá e para lá, para lá e para cá, todos para apanhar o comboio veja lá, cada qual com a sua razão especial, pelo menos parece. A luz cai como que a prumo das clarabóias circulares sobre as lajes do chão já gastas destas andas e desandas e há um barulho dos demónios que seria letal se não o diluíssemos em litros de cerveja a fio. No meio disto tudo, e tudo está mesmo no meio disto tudo, aparece uma procissão com uma orquestra de sopro à cabeça, horrorosamente dissonante como o resto da bagunça, e atrás desta vinte homens suando as estopinhas, levando aos ombros um caixão descomunal com lutos e veludo negro a toda a volta, seguidos finalmente pelo séquito, tanto o espiritual como o laico, à parte toda a malta que se encontra no átrio, não pouca como dito, e como tal impossível distinguir uns dos outros. É de facto um espectáculo e uma balbúrdia.

Junto ao seu comboio põe-se o Chefe da Estação aos berros: "Ninguém vai sem eu apitar!" Mas já vai toda a gente indo, numa andança sem parança, e de súbito levanta-se um homem no caixão, deita as mãos à cabeça e brada: "Meu pobre e querido país!" após o que tomba morto com um valente estrondo no fundo do esquife. Alguns gritam: "É o Ministro! É o Ministro!" Uns choram, outros aplaudem, num sem fim.

Para não me perder no meio daquilo tudo e me fundir totalmente com todas as cabeças no átrio fixo o olhar numa única pessoa, uma mulher de aspecto perfeitamente normal a braços com uma mala e uma grande caixa de chapéus. Debruço-me confidencialmente para a Dora e digo-lhe tão calmo quanto nestas circunstâncias me é possível: "Aquela ali faz-me lembrar uma com quem uma vez andei. Estava--se completamente nas tintas. Que me pusesse nela por traz ou pela frente não dava uma para a caixa, nem piscava um olho, ficando ali pensando sei lá em quê enquanto eu lhe fazia o servicinho. Pode dizer-se que nela tudo se quedava. É claro que contigo é completamente diferente."

Já a Dora sorri o seu sorriso mais meigo, e posso dizer que sempre adorei esse sorriso, mas há que nos pormos a pau quando ela o arvora. Sorri então meiga, muito meiga, dá uma trincadela na salsicha, mastiga, engole e diz: "Estás a ver aquele acolá Malte, parece-se com um em quem um dia enfiei uma baioneta."

É preciso estar mesmo a pau com a Dora, tanto duma maneira como doutra, de modo que a interrompo antes que ela acelere.

"Histórias, tu nunca enfiaste baioneta nenhuma em ninguém Dora. Fui eu que arrumei aquele gajo. Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa ruela pacata dum idílico bairro de moradias, ele escondera-se quase todo dentro dum arbusto mas ouviam-se-lhe os tomates tremer no escuro, e foi quando apanhou com a naifa em cheio na barriga, chauzinho."

"Foi nas costas que lha espetei," diz a Dora.

Numa tentativa de a chamar à razão entravo: "Dora, tu nunca..." mas já ela me interrompe: "Porque diabo matarias tu esse homem quando fui eu que o fiz, Malte." "Cada qual tem as suas razões," digo eu.

Esta conversa poderia por assim dizer ter continuado eternamente, não fôramos interrompidos. Aqui devo confessar que tropeço frequentemente em certo tipo de pessoas que logo se aprontam a alterar o rumo da minha vida, para melhor ou para pior, nunca se sabe, o que não me deixam é ser quem sou, ter por assim dizer a minha própria história. Estamos por exemplo aqui comendo salsichas e bebendo cerveja, é o nosso dia de folga, não temos mais nada no programa, nada pode ser mais simples, é a nossa vida. O problema é que alguém se opõe, querem que se passe doutra maneira, à maneira deles naturalmente. Neste caso somos abordados por uma senhora alta de cabelo grisalho, rosto um pouco marcado, ar ligeiramente azedo, nítido já ter visto melhores dias, se bem me faço entender. Mas tentarei como possa relatar o seu incoerente discurso. Se tudo transpira um vago desvairo desculpe, por mim até dispensava, nem vem sequer à história, mas é de facto o que se passa, não descuremos.

"Não pude deixar de ouvir o que vem de dizer," encetou a Senhora, " e confesso que você se preocupa demasiado com o efémero. Cuide da eternidade! O senhor sabe sequer o que está para aí a fabular! Terá de facto tomilho a mais essa salsicha, ou não terá tomilho que chegue? Veja lá se arranja um Destino!"

"É tão raro a gente ter tempo para isso," diz a Dora.

"Foi o meu marido que despacharam há pouco no comboio," continua a Senhora na sua confusa ordem de ideias. "E vocês aqui de pé como se nada fosse, abancados nesta pequena mesa redonda. Também já aqui estive uma vez, ignorante como eu era, à espera do comboio. De repente diz-me o Ministro meu marido: "Agora deixei-a." "Quem?" pergunto eu, pois não sabia de facto do que ele estava a falar. Eu não tinha na altura Destino nenhum, nem sombras. Agora que ele morreu é outra história."

E rapa na laje com o sapato para a frente e para traz, como que para se meter num buraco.

"De facto a vida não é pêra doce," digo eu para moderar esta conversa de xaxa.

"Isso é só porque o senhor não vai mais longe," diz a Senhora aos murros no peito, fazendo um som cavernoso que não obstante toda a balbúrdia ribomba no átrio com um pequeno eco. "É daqui que sai tudo. Tudo."

Uma pequena pausa nunca fez mal a ninguém. E para lhe ser franco há ainda outro tipo de pessoas que constantemente se metem na minha vida alterando-me o rumo da história, que eu já esteja ou não a braços com ela. Desta feita é o Chefe da Estação que aborda a nossa mesa onde já somos um pequeno comício, se bem que apenas devesse ter sido um tête-à-tête entre mim e a Dora.

O Chefe da Estação é um pequeno homem colérico com o apito numa mão e o alicate dos bilhetes na outra. É resoluto, há-de vencer na vida, disso não tem a mínima dúvida, e a julgar pela expressão do seu rosto também não devemos duvidar.

"Vocês não podem ir neste comboio, porra!" grita ele enérgico, "é só para gente da alta."

"Para nós que temos Destino," confirma a Senhora.

"Nós não estamos à espera de comboio nenhum," diz a Dora.

O Chefe da Estação tem ar de algo lhe haver saído mal. Talvez ele lá em casa seja um homem muito corriqueiro com mulher e filhos, dependente do despertador e do autoclismo, talvez na realidade odeie o alicate com que faz furos nos bilhetes das pessoas, talvez não esteja deveras interessado em sacrificar as próprias tripas à vida onde quer vencer, uma coisa pode muito bem levar à outra, nunca se sabe, como você pela certa está farto de saber.

"Da última vez que fui de comboio atropelamos um homem," diz a Dora. "Era um marinheiro bêbado que se deitara a dormir na linha. O comboio deu um grande salto quando lhe passamos por cima. Estas coisas não se esquecem dum dia para o outro."

Lá está ela outra vez. Pode--se dizer muita coisa da Dora, sobretudo bem, de facto é mesmo difícil encontrar mal que se diga dela, mas à verdade não é muito fiel, lá nisso há alturas em que tem dificuldade.

"Mas Dora," digo eu, "Era eu que ia no comboio, e fui eu que atropelei o embarcadiço. E o salto até nem foi grande coisa. Lembro--me perfeitamente. O homem tirara o casaco, enrolara-o e pusera-o num dos trilhos como travesseiro. Deitara-se então a dormir com a cabeça nele, as pernas esticadas por cima do outro trilho, e passamos-lhe por cima cortando-o em três. Se não acreditas ficas sabendo que iam quatro testemunhas na carruagem.

"Muito possível Malte," diz a Dora com o seu sorriso meigo, "mas tu não ias lá connosco."

"E quem afirma uma coisa dessas?" clamo eu vigorosamente.

"Os outros quatro."

"Isso é mesmo o que eu chamo Destino!" brada a Senhora trémula de entusiasmo.

"Não, nós cá não vamos apanhar comboio nenhum," diz a Dora sem ponta de hesitação.

O Chefe recupera entretanto o fôlego, aperta a presilha do boné, abana o apito junto à orelha para ouvir se a ervilha ainda lá está e recorta agora no ar figuras com o alicate.

"De resto o vosso bilhete só é válido no outro sentido." O seu tom de voz é nitidamente desdenhoso, com ele não se brinca.

"Então guardámo-lo para o regresso," sai-se a Dora que sempre foi despachada controlando-se todavia e emendando logo: "Mas nós não vamos apanhar comboio nenhum!! Nem nada que se pareça! Você não percebe, homenzinho?"

O Chefe da Estação dá de súbito meia volta e vai-se, ou seja, passa revista ao átrio como um pavão. Talvez que na realidade seja uma pessoa perfeitamente normal com mulher e filhos e autoclismo e projectos de reforma, mas nas costas tem escrito em letras grandes: "Não fica assim, não perde pela demora."

"Lá isso nunca se sabe", diz a Senhora, "mas costuma haver sempre lugar neste comboio, quer num sentido, quer noutro, ou lá para onde vá, o Destino é que sabe. Mas que me diz a um pequeno simpósio? Não lhe fazia mal nenhum!"

Aqui ela insere uma longa e absolutamente escusada digressão sobre o que se entende por simpósio, não poupando detalhes da raiz etimológica, dos primórdios de simpósio, simpósio através dos tempos e o que o futuro nos trará; de qualquer modo só nos faria bem, isso pela certa, para analfabetos como a gente não há nada a perder, de resto só nos será servido chá, que faz bem tanto ao fígado como ao juízo. Nada disto nos diz respeito nem vem à história, está-se mesmo a ver, só o refiro como exemplo do que temos de aturar enquanto tentamos dar conta do recado por conta própria às apalpadelas no escuro por assim dizer e as pessoas se metem na nossa vida. De modo que declinamos a ajuda atentos veneradores e obrigados, a Senhora pira-se melindrada e ficamos finalmente a sós, como sempre foi a ideia, se ignorarmos o formigueiro de gente que vai e vem à nossa volta, mais ou menos decididos, todos muito enérgicos e como que impelidos por uma imperiosa necessidade interior.

Entretanto a Dora foi ficando mal-humorada, abelhuda mesmo, não que tenha tendência para isso, mas acontece, e então é melhor ter cuidado.

"Foste tu que mataste aquele homem com a tua baioneta," diz ela.

"Nunca matei homem nenhum à baioneta," respondo. Primeiro porque nunca tive uma baioneta, segundo porque não sei porque razão o faria, e terceiro porque foste tu que o mataste à naifa."

A Dora toma um golo de cerveja. "Tinha-se-te metido na cabeça que ele andava atrás de mim. Não suportavas isso e enfiaste-lhe a baioneta. Por que diabo andarias tu lá às voltas numa pacata ruela dum idílico bairro de moradias?

"Não Dora, és tu que sonhas. Eu não sou para essas coisas, nem ando às voltas nas ruelas pacatas dos bairros de moradias. Foste tu que mataste o homem, e posso dizer-te porquê."

Ela começa a aparentar um certo interesse, talvez apenas por curiosidade, dir-se-ia uma expressão atenta no olhar. "O que é que agora me estás para aí a magicar?" pergunta ela. "As tuas histórias às vezes até podem ter piada."

Lá está ela. Há alguém que melhor saiba virar as coisas do avesso é a Dora. E continua, continua até chegar aonde quer.

"Ele chateou-te," digo eu. "Se calhar só te apalpou o cu, nem era preciso tanto. Ou talvez seja mais grave e até descender da infância."

"Disparate," diz ela. "Foste tu que mataste o homem e sábe-lo muito bem. Ele andava atrás de mim, tu vieste com a baioneta, ele estava meio fora do arbusto, deste-lhe o golpe, end of the story."

"Que sabemos nós disso," digo eu. "Talvez devêssemos ouvir a opinião dele."

"Não será um pouco tarde para isso?" pergunta ela.

Pode dizer-se muita coisa da Dora, mas esperteza saloia é com ela, uma manha com que desmancha qualquer lógica.

"Isso é tão certo como eu estar aqui," diz ela.

"E quem diz que tu estás mesmo aqui?" pergunto eu numa tentativa de a fazer ver um assunto de dois lados, o que não é fácil, e na maior parte dos casos puro desperdício.

"Digo eu," diz ela.

A sua caturrice ultrapassa qualquer limite, vai até muito longe com ela, disso não resta a menor dúvida, de modo que para embargar o seu equilibrismo verbal encomendo mais duas cervejas, um gesto apenas, está-se mesmo a ver, mas que fazer numa situação destas?

"Mais duas cervejas," digo então. "E ficamos ou não de acordo, que nos estamos nas tintas para o comboio?

A Dora fita-me profundamente, é de dar vertigens, e proclamamos uníssonos de mãos dadas: "Estamo-nos nas tintas para o comboio, está combinado, ESTAMO-NOS NAS TINTAS PARA O COMBOIO!!!"

"OK, talvez não sejas assim tão ciumento," diz ela, e para já há um pacto, uma cedência pelo menos, e uma cedência da parte dela não é todos os dias, pelos vistos as cervejas começam a fazer efeito.

"Lembro-me daquela vez que me perdeste ao póquer e chegaste a casa com um tipo qualquer com quem eu tinha de ir para a cama," diz ela.

"Estás doida!" grito eu. "Nunca te perdi às cartas. Estás mesmo a delirar!"

"Eu nunca deliro," diz ela. "Só digo as coisas como elas são. E lembro-me perfeitamente desse tipo que me trouxeste para casa, pequeno, lingrinhas e com uma coisa enorme entre as pernas. Ouve lá Dora, disseste tu, perdi-te ao jogo, tens mesmo que ir para a cama com ele."

"Não é verdade!" protesto eu com lágrimas nos olhos. "Nunca te tratei assim. Então como era o gajo?"

"Mais ou menos. Se tinha que ser, podias ter arranjado coisa pior."

Se bem que chore por pouco, isto é de longe o pior que ela me fez. Não é só mentira, é uma mentira por gozo, que me atira à cara sem vergonha, sem mais nem para quê, de cerveja em punho, arranjando o cabelo com a maior das inocências. Já quase começo a patear no chão, eu que até sou pacato, mas o meu poder de encaixe tem limites, tal como naturalmente há limites para o que eu possa ter engendrado. As lágrimas correm-me pelo rosto, não tenho palavras.

"Então retirou-se palmo a palmo após longo e aplicado serviço, e depois foi a tua vez."

"Isto é demais!" grito eu. "Ali a assistir, esperando a minha vez, eu? Detesto essas coisas, não vês como me chocas?"

"Tu não entendes uma declaração de amor," diz a Dora.

Uma declaração de amor? Fiquei parvo, paf, varado, fora de mim.

"Tu foste muito melhor. Nunca foste tão bom. Firme como uma cepa. Sabias bem o que eu queria. Uma declaração de amor!"

Agora é que não entendo patavina, mas para refrear os meus sentimentos bem ambíguos e evitar mais embaraço limito-me a dizer quase como se nada fosse: "Pois pois, é o que pode acontecer. Mas não te esqueças que nos estamos nas tintas para o comboio. Promete-me, e nunca mais se fala no assunto."

Unânimes como sempre quanto ao que importa dizemos então em coro: "ESTAMO-NOS NAS TINTAS PARA O COMBOIO!!!"

Já deve ser lá para o fim da tarde, as pessoas continuam numa fona, o átrio parece ainda mais engarrafado, e se bem a luz cair agora oblíqua pelos vidros fumados e tudo para mim estar pouco claro de tal forma a confusão me subiu à cabeça, decidimos separarmo-nos um instante, a cerveja toda que bebemos começa a apertar, de modo que mulheres por um lado e homens por outro, é assim na maior parte das estações do caminho-de-ferro, não que eu seja muito viajado, mas você sabe como é.

Arrojo-me então por entre esta balbúrdia de gentes e bagagens, chinfrim por cima, tropel por baixo, tudo um pouco obtuso, camisa colada ao corpo, passo hesitante, ora vejo só lajes e pés de pessoas, ora as velhas traves da cobertura, mas gente vejo por toda a parte, para a frente é que é o caminho, às tantas parece-me ouvir vagamente um apito mas tudo muito irreal, se você está a ver onde eu quero chegar, e dou de súbito comigo sentado na carruagem dum comboio com um jornal aberto à minha frente.

E então é que se ouve nitidamente um apito, o comboio põe-se em movimento, baixo o jornal e recosto-me aliviado. E por incrível que pareça, mesmo ali a meu lado por detrás dum jornal que começa a pousar no assento está a Dora, fitando-me assombrada e eu fitando-a igualmente, olhando um para o outro como se nos tivéssemos perdido.

"Então parece que sempre vamos," digo eu para dizer qualquer coisa.

"É, parece que já vamos indo," diz a Dora.

 

 

 

Traduzido do dinamarquês por Jorge Braga

Forlaget Ørby, Copenhaga, Dezembro de 2004