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AGUSTINA BESSA-LUÍS - Europa XL, Politiken 2004
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1. Na pintura portuguesa destaca-se Nuno Gonçalves com as famosas tábuas de S. Vicente, obra admirável do segundo quartel do século XV. O tema é a veneração de S. Vicente, patrono da cidade de Lisboa. Retrata uma pequena multidão de figuras que personificam as três classes da sociedade — clero, nobreza e povo. O Infante D. Henrique, o Navegador, a quem se deveu a Escola de Sagres, onde se estudaram as rotas dos caminhos marítimos, está identificado pelo chapéu burgonhês, mas o corte de cabelo curto, dito à chamorro, parece fora de moda para a época. Sabendo-se que D. Henrique era homem de grande aprumo no vestir, entende-se que o retrato seja póstumo. Ou então é-o a data suposta. O painel de Nuno Gonçalves está cheio de enigmas, sendo o último o retrato do desconhecido no painel dos pescadores que se parece com Salazar, o ditador português. É possível que no restauro do painel o autor acentuasse essa parecença. A lisonja serve a História quando a Verdade se distrai.


2. A bela fotografia que representa a cidade do Porto, muito explorada pelos fotógrafos de todos os tempos, inalterável através dos anos, merece bem a sua celebridade. O que vemos é o casario fechado e como uma floresta de casas altas donde se vigiava o rio, caminho de negociantes que implantaram no burgo um estilo de vida e um comportamento próprio. Como era longa a demora no estrangeiro e as famílias ficavam desamparadas dos homens da casa, foi proibido por decreto que os fidalgos permanecessem dentro da cidade mais do que três dias. Isto por serem gente dada a ociosidades e galanteios. Daí, pela falta de trato com a corte, o Porto foi sempre rude e de gostos virtuosos, se não de práticas conforme os gostos.


3. Santo António de Lisboa. Convencionado que um santo pertence ao lugar onde morre e não onde nasce, Santo António é hoje consagrado como sendo de Pádua. Mas de facto nasceu em Lisboa e fez os seus estudos em Coimbra após os quais trocou o hábito regrante pelo dos franciscanos, cuja ordem admirou levando-o a trair a sua primeira vocação. Parece que a corrupção dos frades ricos, o seu orgulho e cumplicidade com os vícios da corte, o desgostou. Era de feitio genioso e viveu sempre mal com tiranos e poderosos. É possível que acabasse às mãos deles, o que explica a sua apressada canonização. É hoje no mundo inteiro um dos santos mais populares e mais venerados. Homem de sentimento e de razão, a terra deu--lhe a glória da memória e as pessoas invocam-no para recuperar as coisas perdidas. A alma, possivelmente.


4. O colar da rainha. Quando se deu a revolução de 25 de Abril de 1974, muitas pessoas comprometidas com o antigo regime tomaram o caminho do exílio. Coisas que estavam no recato dos bancos foram identificadas, ainda que não pudessem ser acompanhadas no seu percurso. Uma delas foi o colar da rainha de França, Maria Antonieta. O rumor de que ele pertencia a uma família do Porto correu como essas notícias que a própria imaginação rejeita por não saber se trazem com elas qualquer malefício. Mas a ideia romântica andou um pouco pela cidade, fazendo acordar velhos fantasmas, entre os quais o da Rainha, a quem o ministro plenipotenciário dos Estados Unidos da América em França chamou libidinosa. Era um homem estranhíssimo, o ministro Morris. Quando tinha em perspectiva uma conquista amorosa, escrevia na sua agenda "vamos a ver". Não se pode dizer melhor dum deus que é cego.


5. Menina e Moça, novela do século XVI, de autor misterioso cujo nome chegou até nós como sendo Bernardim Ribeiro, presumível judeu que viajou para Ferrara e decerto aí morreu. É suposto que a novela Menina e Moça seja uma das mais belas do mundo. Carregada de simbolismo, de chaves obscuras, ainda hoje não encontrou paralelo na sensualidade suspensa, na consolação da saudade, na tristeza que resume o mal de viver e de amar. É uma obra-prima. Deixa ao leitor o desejo de adivinhar que corrige a utopia de tudo saber.


6. Música — a popular antiga, como a "gota", espécie de toada para ser dançada aos pares. Traduz a graça da mulher e a sedução do homem. O trajo de trabalho é verde, o vermelho é de festa. Ou preto, à imitação dos trajos de corte, para fazer realçar as jóias, em geral o oiro que assegura o dote da mulher.


7. O soneto de Luís de Camões, que começa "Alma minha gentil que te partiste..." É um cântico de saudade, menos triste do que repousado na tristeza, futuro estado do que tem por irremediável a morte, neste caso a morte do ser amado. Camões sabe como ninguém fantasiar a dor e fazê-la brilhar como um sol nas trevas.

8. A cabidela de frango. É um prato cujas origens se desconhecem. Pode ser árabe, que os árabes tinham essa espécie de mistura de sangue com os miúdos de galinha, ou só as asas, o pescoço e as pernas, juntando-se vinagre. Mas a palavra "cabidela" pode vir do latim capitella e refere-se ao mesmo cozinhado. Excelente prato da região do Minha, ao norte de Portugal. Também se usa juntando-se arroz.

9. O Douro. Como paisagem é extraordinário. São as vinhas e o terreno donde sai o vinho do Porto. uma cultura única, feita pela mão do homem porque é talhada na montanha, em escada, e não permite o uso de máquinas. O aspecto é impressionante, o colorido no Outono é comovente como se uma torrente de vinho se entornasse na terra. Tem a acompanhar a paisagem o rio Douro (do celta dour, água) que corre no terreno pedregoso e que dá ao rio, em certos percursos, um ar tenebroso. É a única paisagem trágica de Portugal. O rio desagua no Porto, onde tem a sua estreita Foz após um largo espelho de água, velho porto do Porto e da velha cidade. O Douro era, em tempos, a via habitual para o vinho do Porto, carregado em pipas até aos armazéns de Gaia onde sofria a últimas dosagens antes de ser comercializado.

10. A descolonização. Foi um golpe no coração histórico dos portugueses, que viviam pobres com o estado de alma dos ricos. África era o seu espaço místico onde se ia caçar, ser livre, fazer fortuna e filhos doutra cor. A descolonização não foi exemplar, se bem que milhares de africanistas fossem integrados no continente português como se viessem de visita e encontrassem os parentes à espera. A dor da separação da terra amada foi compreendida, protegida, favorecida. Os velhos foram morrendo, com a melancolia de retornados, talvez maldizendo os sonhos que tiveram e achando o Portugal acanhado e intriguista. Até eu, que nunca fui a África, gostava de lá voltar, como se volta ao sítio de origem, onde estão os ossos dos nossos antepassados. Aquele guerreiro no cimo duma colina, ao entardecer, apoiado numa lança, Jung dizia que era um sortilégio que todos nós levamos no sangue e ao qual dificilmente se resiste.

Agustina Bessa-Luís
Porto, 29 de Outubro de 2003

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