De Blaa Øjne

in

Blixeniana 1980

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The blue eyes

Ladies Home Journal 1960

Traduzido do dinamarquês

e conferido com a versão inglêsa

por Jorge Braga

 

 

Esta história foi narrada por Karen Blixen na Rádio Dinamarquêsa em 1960. O texto não é exactamente o mesmo, o que provavelmente se deve ao facto de a autora não socorrer do manuscrito nas suas leituras públicas assim como a também em 1960 o haver escrito em inglês para o Ladies Home Journal de Filadélfia sob o pseudónimo Isak Dinesen.

Uma versão reduzida desta história integra "Peter e Rosa", um dos Contos de Inverno publicados pela editora Relógio d’Água numa tradução do original inglês Winter Tales.

 

Há 150 anos vivia em Helsingør um jovem capitão muito enamorado da sua jovem e bonita mulher. Tendo a sorte bafejado o seu feitio trabalhador e astuto, comprou navio de seu, a que deu o nome dela, Bela Sofia. Encomendou a um entalhador de Dragør uma figura de proa tão parecida com a verdadeira Sofia quanto possível — pintada cor-de-rosa e azul-celeste, como o vestido que ele no ano anterior lhe trouxera da Madeira — com longos caracóis loiros ondeando ao vento, em pura folha de ouro, como os que a jovem senhora durante o dia escondia pudicamente sob uma touca branca.

Ele tinha muito orgulho naquela figura de proa, que lhe dava muita alegria, e dela falava à mulher. "Não é um amor?" dizia ele. "Sempre um passo à minha frente guiando-me na dança das ondas. Arrosta sorridente a tempestade de neve e nem a espuma salgada lhe faz piscar os olhos. Brinca com as aves do mar, e até já vi uma gaivota pousar-lhe na cabeça". Mas a mulher tinha ciúmes da figura de proa. "Os homens são assim" dizia ela. "Nas raparigas que lhes viram as costas e nem se penteiam, de cabelo à solta, nessas pensam, e delas falam. Mas cá entender as boas esposas que lhes remendam as meias, lhes acendem a lareira e esperam por eles lá em casa, isso não é com eles. "Oh minha mais querida do mundo," dizia ele, "que havia eu de fazer de uma mulher que eu entendesse? Gosto dela porque se parece contigo, e gosto de ti porque te pareces com ela. O coração dum marinheiro é grande e rude como as suas manápulas, onde facilmente cabem duas belas raparigas; até todas as raparigas do mundo, que abençoadas sois tão suaves, leves e escorreitas! Mas abençoo-te também pelo teu pequeníssimo coração onde só cabe um homem, ou quase, porque uma parte dele fica sempre de fora, e tu ainda suspiras: "Porque há-de ele de ter tudo isto e o demais?" Mas tu bem sabes que quando quero beijos volto sempre a casa. E falando de beijos e dessas coisas: gostas?" "Que pergunta a fazer à sua esposa", disse ela, "tu não me compreendes".

Acontece que o capitão, quando andava em comércio pelas Índias Orientais, consegui salvar um velho rei ilhéu de um ataque de traidores e levá-lo em segurança para a fortaleza da filha e do genro, numa noutra ilha. E sentindo-se o velho rei agora rodeado de gente que o amava, agradeceu ao seu salvador com os olhos rasos de alegria a ajuda prestada, oferecendo-lhe em recompensa duas safiras raras e preciosas, de um azul transparente e profundo como o oceano Índico. A pedido do capitão, ordenou a jovem princesa que o joalheiro cravasse as duas jóias no rosto de madeira da figura de proa, como dois olhos azuis. O jovem capitão só então ficou verdadeiramente satisfeito com a sua Bela Sofia. "A partir de agora", pensou ele, "tem também os olhos de minha mulher!" E mal regressou a Helsingør mostrou-lhe os olhos azuis.

"Agora é que ficou como havia de ser," disse ele. "Vê como são radiantes os olhos dela. Com eles, no regresso, ela viu peixes voadores saltarem a um palmo de distância e fitou a lua cheia, no céu e no mar." "Não tem jeito nenhum, usar pedras preciosas desta maneira," disse a bela esposa. "Era muito melhor que mas desses para uns brincos." "Meu tesouro, meu pão de açúcar," – respondeu ele. "Pede-me o que quiseres, de todo o mundo, mas isso não que não posso." "Tu não me entendes mesmo," disse ela.

Então é que a bela senhora não ousava mais pedir as safiras ao marido. Mas pensava nelas todos os dia, e via-se muitas vezes ao espelho, imaginando como lhe cairiam bem nas orelhas. Na véspera do marido partir de novo, desta vez para o golfo da Guiné, dava a Capitania de Helsingør uma festa em sua honra. E enquanto ele se divertia com velhos e novos colegas, foi a mulher ao porto, de lanterna em punho, aonde marcara encontro com o vidraceiro. Aí ergueu a luz durante o tempo que este levou a tirar as safiras dos olhos da figura de proa e substitui-las por pedaços de vidro azul. Guardou as jóias numa caixinha, que meteu no bolso da saia. Na manhã seguinte, ao dizer adeus, o marido estava ainda tão ensonado que não deu pela mudança. Beijou ternamente a mulher e acenou-lhe do convés até a perder de vista. Então a bela Sofia encomendou ao joalheiro que lhe cravasse as safiras num par de brincos.

Passado algum tempo a mulher do capitão notou que não via tão bem como dantes, e piorava de dia para dia. Nem chão nem paredes pareciam estáveis, tudo andava para cima e para baixo, grandes manchas negras nadavam à sua frente em todas as direcções. No princípio não se preocupou, mas quando deixou de poder enfiar a agulha ficou assustada, e pouco depois visitava uma velha finlandesa, para lhe pedir conselho.

A velha vivia ainda em Helsingør, quase cem anos após a subida ao trono de Frederico V, que por essa ocasião desejara conhecer os trajes e costumes dos estados vassalos, ordenando a presença de representantes dos mais nortenhos. O pai dela fora o Anfin a que chamavam Ganfin, que vendia o vento em sacos, aos marinheiros. Abrindo o primeiro nó, saía uma brisa ligeira que enchia as velas do navio e o fazia deslizar nas ondas como numa valsa. Abrindo o segundo nó soltava uma nortada que fazia carneiros nas ondas; o terceiro, esse soprava uma ventania de fazer gemer o costado, cavalgando os negros topos e vales do Mar do Norte, pelo Skagerrak e Kattegat abaixo, até ao Øresund, passando pelo castelo de Kronborg. Mas a filha dele, a nossa velha, percebia de unguentos e mezinhas.

Tentou durante algum tempo curar os olhos da mulher do capitão com bálsamo e águas. Mas nada adiantava, e por fim disse resignadamente: "Eu não vejo em que te possa ajudar, tudo o que tento faz-te mais mal do que bem, pois as forças a que pedimos auxílio aliaram-se às que queremos combater. Acham, creio eu, que se cometeu uma injustiça contra todas elas. Os teus olhos irão de mal a pior, e não tarda muito estarás completamente cega."

A jovem e infeliz esposa rompeu em choro, grandes lágrimas rolavam dos olhos azuis quase cegos. "Ó meu Deus," gritou ela, "tomara que a Bela Sofia estivesse de novo em Helsingør para lhe tirar as pedras de vidro e repor as jóias no devido lugar!" Apertou a mão escura e enrugada da velha finlandesa e disse: "Ó boa Sunniva, ampara-me bem, leva-me ao porto e diz-me que aí vês recortar-se no céu o ditoso sinal, uma vela, e que o meu marido regressa. Traz-me o seu navio, traz-me o meu homem para os meus braços, para que eu lhe possa dizer que de agora em diante encha o seu grande e terno coração como queira, como quando ele com ternura encheu a sua grande mão ao apertar-me o seio."

Mas o barco não voltou. Em lugar dele chegou uma carta do cônsul dinamarquês no Porto, notificando o povo de Helsingør de que a Bela Sofia tinha naufragado na costa portuguesa, com homens e bagagens. E era uma coisa estranha, escrevia o cônsul, ter abalroado em pleno dia uma roca que se erguia alta no meio do mar.