TRÊS MULHERES COM MÁSCARAS DE FERRO

Peça de teatro de Agustina Bessa-Luís


Escrito à máquina em três folhas A4 e emendado à mão por ela própria numa tarde de Verão de 1997
para uma representação do “Quase Teatro” (posta em cena por Maria Helena Padrão e Arlete Sousa
integrando a comemoração dos 50 anos de vida literária de Agustina Bessa-Luís
organizada pela Universidade Fernando Pessoa em Arca d’Água, no Porto)
a que assisti na companhia da autora.
Jorge Braga

 



TRÊS MULHERES COM MÁSCARA DE FERRO

Três mulheres, na atitude das três Graças, duas de costas, uma de frente, como se dançassem. Uma veste como camponesa, é a SIBILA. Outra veste como uma senhora rica do século passado, é FANNY. A terceira é EMA e usa um vestido de baile. Voltam-se lentamente umas para as outras.

SIBILA – Não nos conhecemos.
FANNY – Eu apresento-me: Sou Fanny, filha do coronel Owen. (Tira a máscara.)
SIBILA – Eu sou Quina, lavradeira. Nasci no campo e aos dez anos aprendi a governar a casa. Empresto dinheiro a muita gente, mas dantes não tinha nem para comprar um bacorinho na feira. Nem socos para o Inverno. E aquela quem é?
FANNY – Quem és? Uma actriz?
EMA – Não sou uma actriz.
FANNY – Uma mulher da vida?
EMA – Não sou uma mulher da vida.
SIBILA – Já se vê que não é. É uma pessoa educada. Não põe as mãos nas ancas e não fuma.
EMA – Eu ponho as mãos nas ancas e fumo também. Mas não sou uma mulher da vida. As aparências enganam.
FANNY – As aparências não enganam, mas provam qualquer coisa. Mostra-me a tua cara. (EMA tira a máscara.) De facto, as aparências enganam. Tens cara de anjo.
SIBILA – E porque não há-de ser um anjo? Andam par aí e a gente não percebe. E preciso ser muito fino para perceber.
FANNY – Quer dizer que és mais esperta do que eu?
SIBILA – Não quero dizer isso. Nunca se quer dizer a verdade.
EMA – Eu digo quem sou. Sou a mulher do medico. Casei-me por amor, sabem? Ele vivia do outro lado do rio e eu via-o pelo binóculo e parecia-me que estava ao meu lado. Parecia que podia arranjar-lhe a gravata e tirar-lhe um fio do casaco.
FANNY – Um cabelo, queres dizer.
EMA – Um cabelo? Ah, não! Os homens são-me fiéis, não sei porquê. Acho que tenho qualquer coisa de bruxa.
SIBILA – Não diga isso. As bruxas são pessoas como nós. (Tira a máscara.) Como nós. Vê?
EMA – Vejo, o que? Devia arranjar-se um pouco e pintar o cabelo. Ficava muito melhor. Eu não podia andar assim vestida, com meias grossas.
SIBILA – Faz frio e eu tenho frio.
EMA – Também eu tenho frio. Mas tenho também orgulho. Não quero que digam que pareço mal, que não sei nada de modas. Sou bonita ou não sou?
SIBILA – É muito bonita. Mas a boniteza não come com a gente à mesa.
EMA – Tenho que agradar ao meu espelho. Aos homens, não me importo. Eles são o meu espelho, também e verdade.
FANNY – Acho que eles a amam. Amam-na como doidos. Choram e torcem as mãos de desespero, e depois fingem que não sentem nada e abandonam-na para parecer que não sentem nada. Também eles têm orgulho.
EMA – Não sei. Esta cor não me assenta bem. – Veja que movimento tão bonito tem o meu vestido, ao andar. Parecem as ondas do mar a bater-me nos joelhos.
SIBILA – O mar não é assim. E como o leite quando transborda.
EMA – Seja como for, fica-me bem. Reparem quando eu ando.
FANNY – Já reparamos.
EMA – Esse chapéu é horrível. E os caracóis! Não lava a cabeça nem de mês a mês.
FANNY – Escovo os cabelos de manhã e à noite. O meu pai dizia que a escova é a grande educadora das raparigas.
EMA. - Acredita nisso?
FANNY – Em matéria de educação não acredito em nada. Acredito nas hábitos. As mulheres são hábitos de homens.
EMA – Em que acredita mais?
FANNY – Na vaidade, na obstinação. Na vingança.
SIBILA – Eu acredito nos negócios e nos homens de palavra.
EMA – Meu marido era um homem honesto mas não era um homem de palavra. Amava-me e morreu porque morri. Mas a palavra destina-se à vida e não à morte.
FANNY – Um homem que ama nunca é um homem honesto.
EMA – Como diz, senhora?
SIBILA – Ela não quis dizer isso. Tenho a certeza de que não quis dizer isso.
FANNY – Deixe de querer compor as coisas. Vocês, as mulheres ignorantes, adulam mais a mentira do que nós, as mulheres instruídas. Falam por meias palavras, fogem de explicar-se. Porque fazem isto?
SIBILA – Não sei. Quando meu pai explicava o que fazia e por onde andava, minha mãe não acreditava nele.
EMA – Acreditava quando ele lhe mentia?
SIBILA – Não. Mas a mentira sempre a consolava mais. Os erros dos homens são bons de remediar. Basta castigá-los. Mas quando são honestos, é como se nos expulsassem da vida deles. Do coração deles.
FANNY – Deixe-me pensar: José Augusto era um bom rapaz. Não se precisa de ninguém para ser bom; só para ser mau. Eu vi logo que ele não precisava de mim para nada. Foi um jogo, e eu perdi.
EMA – Com os, homens não se joga, nem quando não se tem nada a perder.
SIBILA – Então, senhoras? Falar dos homens é desenganá-los de nós. Nunca se diz o principal.
FANNY – O que é o principal?
SIBILA – Vamos contar um caso importante das nossas vidas. Vemos aí o que é o principal.
FANNY – Começa, já que falaste.
SIBILA – Eu começo. Não sou tímida nem tola, senhoras. Eu começo: minha mãe contava que quando tinha sete anos a chuva apanhou-a no ca-minho par casa. Era já de noite, porque no Inverno os dias são pe-quenos, e havia um ribeiro que ela não podia passar. A água tinha crescido muito e ela não via onde pôr os pés. Estava assim aflita quando um rapaz de ai dezoito anos chegou à beira dela. "Aonde vais, menina?" – disse ele. Era loiro como o trigo e levava na mãos uma vara de marmeleiro. "Segura-te nesta vara, que eu ajudo-te a passar." Minha mãe ficou toda contente e disse-lhe, já do outro lado do ribeiro: "Senhor Josezinho, muito agradecida". O rapaz gritou-lhe, quando a viu correr pele caminho fora: "Quando fores grande, eu caso contigo. Não te esqueças!"
EMA – Que história tão comprida!
SIBILA – Durou anos e anos porque vieram a casar.
FANNY – E o principal? O que e o principal?
SIBILA – No leito do ribeiro também se faz a cama.
FANNY – Tem graça, a nossa campónia! As coisas saem-te assim? Não pensas, nem nada?
SIBILA – Pensar, não penso. Choro e rio, que são conversas que não precisam de estudo.
FANNY – Bom, agora, a Bovarinha vai contar qualquer coisa.
EMA – Sei lá! Não conheci a minha mãe. Morreu quando eu era pequena, muito pequena. Nós tínhamos um oratório grande como uma carruagem e ele tinha dentro flores de cera e a imagem duma mulher triste, sentada. Tinha brincos de brilhantes nas orelhas e sete espadas de prata espetadas no peito. Um dia, meu pai, que gostava muito de mim, disse-me: Estes brincos, dou-tos quando fores grande. Podes levalos aos bailes com um vestido cor de açafrão". Eu fiquei triste. Devia ficar contente, mas fiquei triste. "Porque ficaste triste?" – disse-me o meu pai. "Eu quero os brincos; mas, sem as espadas, os brincos não prestam. Quero as sete espadas no meu coração." O meu pai começou a chorar.
SIBILA – Essas coisas não se dizem.
FANNY – Querias mesmo as espadas?
EMA – Era o principal. Sem o sofrimento, uma mulher não é ninguém.
SIBILA – Ah, senhora, eu sou alegre e agora mudei. Não quero mudar, quero ser alegre e ter olhos de doninha para alegrar as pessoas.
EMA – Fala tu agora, Fanny Owen'. Não digas que vais ficar calada.
FANNY – Estava uma tarde com a minha irmã a regar o jardim e por cima do muro vi dois rapazes que passavam a cavalo. Minha irmã não os viu, mas eu sim. Vi que a amaram ambos tão de repente que parecia coisa de encanto. Eu acredito em coisas de encanto e bruxedo. Já minha mãe acreditava. No Brasil aprendeu, eu aprendi com ela. Acredito que há sinais que podem mudar a vida da gente.
EMA – Que sinais?
FANNY – Um pouco de vento, quando não há vento e as flores nem sequer bolem. Os pássaros não cantam, porque o calor é muito, e, de repente, uma avezinha cai no chão sem que ninguém lhe toque. É um presságio. Um sinal. É preciso rezar logo três Ave-Marias. Mas eu não rezei. Vi os homens par cima do nosso muro e fiquei a olhar para eles. Apeteceu-me matá-los. Se tivesse ali uma espingarda, tinha-os matado.
SIBILA – Uma espingarda de dois canos.
FANNY – Não estou a brincar.
SIBILA – Nem eu. Com armas não se brinca.
EMA – O que te fez ter essa ideia? Nunca tive uma ideia assim.
FANNY – Também não tiveste uma irmã assim. Tão pura, tão doce, tão amiga! Se eu estava doente, eu ou qualquer pessoa, ela corria a viver a nossa doença. Convencia a febre a deixar-nos e o sono a descer nos nossos olhos. Era enfermeira e mãe; era anjo como os anjos de aura ao lado dos altares. Eu adorava Maria, adorava-a. Não se deve adorar ninguém assim. Nem Deus.
SIBILA – Não é preciso pecar para nas convencer. Já chega.
FANNY – Eu era o rapaz da casa. Gostava de ler, de vestir roupas
de homem, de andar a cavalo. Meu pai tinha orgulho em mim. Ensinou-me a usar o sabre e deu-me uma pistola como prenda de anos.
EMA– A mim, deram-me um cestinho de costura. E um anel.
SIBILA – Também tive um anel de ouro e um cordão de três voltas.
FANNY – Nada disso me interessava. Maria gostava, se gostava! Estava uma manha inteira a frisar o cabelo e a escolher o vestido. Parecia uma santa num andor e os homens ficavam doidos por ela. José Augusto ficou doido por ela. Entrou em casa cheio de manhas de amor; cheio de manhas de raposa. Maria caiu-lhe aos pés, coitadinha! Não
resistiu e ficaram noivos, amantes, tudo.
EMA – Casaram-se?
FANNY – Quem casou fui eu. Tirei-lhe o homem como quem tira uma
carteira. Roubei-a, atirei-a para as bocas do mundo, teve que casar com um enfermeiro pobre que a levou com o dote e a fama de enganada. Assim acabam os amores inocentes.
EMA – Foi muito mal feito. Não tens alma Fanny Owen.
FANNY – A alma é um vicio.
SIBILA – A alma é suspiro de Deus na nossa boca. Maria não merecia isso. As mulheres precisam de compaixão. O amor vem depois.
FANNY – A compaixão vem depois. Matei-me de compaixão e morri virgem como nasci. Por compaixão. O prazer da culpa ajudou-me a morrer bem.
EMA – É horrível.
SIBILA – São coisas deste mundo.
EMA – Vamos pôr as nossas máscaras e voltar para o nosso lugar. Elas escondem que somos iguais aos homens e que temos direito ao rei-no deles. Mas como os iguais não se podem amar, temos que usar estas mascaras de ferro toda a vida.
FANNY – Estou a pensar se Maria alguma vez me perdoou.
EMA – Não me parece que o perdão te interesse para nada. Ele es-tragava o prazer da culpa, como lhe chamas. Entre todos os prazeres de homem, esse deve ser o mais digno dum apreciador. A culpa é uma forma de maturidade. Eu nunca senti culpa de nada.
SIBILA – Se não formos culpados de alguma coisa, então o que fica é muito pouco. Sem a culpa, somos todos barriga.
FANNY – Bonita cantiga, bonita cantiga! Somos todas barriga, somos todas barriga.
EMA – Cala-te, cala-te. Voltamos ao nosso pedestal como as três Graças que somos.
SIBILA – Eu não gosto muito de lugares altos.
FANNY – Nem eu, nem eu. Anda, eu seguro em ti.
SIBILA – Então, vamos.

Sobem para o sitio das Graças e ficam transformadas em estátuas. EMA volta a mexer-se e pergunta:
EMA – Não disseste o que é o principal, Fanny Owen.
FANNY põe o dedo nos lábios, pedindo silencio. Ficam imóveis.


Agustina Bessa-Luís




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